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EDUCAÇÃO

O aprendizado em tempos de pandemia em Piratuba

Como crianças, pais e professores, estão se adaptando ao modelo de ensino à distância

Pâmela Schreiner
Cada um na sua casa, mas todos juntos! Assim foi a festa junina promovida pela professora Claudia!

Com a pandemia do coronavírus, as festas juninas foram suspensas este ano. Mas para os alunos do 4º ano I da Escola Municipal Professora Amélia Poletto Hepp, de Piratuba, a comemoração não passou em branco. Eles vestiram o traje típico, brincaram de pescaria e de correio elegante, fizeram bandeirinhas e ainda comeram pipoca e pé-de-moleque. Tudo isso sem sair de casa e respeitando o isolamento social. Foi uma festa junina virtual, que fez parte das aulas ministradas pela professora Claudia Port. Com a ajuda das famílias, as crianças se divertiram e ainda aprenderam sobre a festa que homenageia São João.


A professora Claudia convocou toda a família para a aula "festa junina". As crianças entraram na brincadeira: teve pescaria, comidas típicas, correio elegante e muitos momentos de aprendizado


As aulas presenciais foram suspensas em Santa Catarina no dia 19 de março. Muitas escolas adotaram o modelo de ensino à distância, para não prejudicar os estudos e garantir a continuidade do ano letivo. Em Piratuba, as aulas virtuais começaram no dia 04 de maio, utilizando uma plataforma contratada pela prefeitura. Os professores postam conteúdos e os alunos acessam de casa. Esse novo modelo de ensino apresenta desafios para os educadores e também para os pais, principalmente de estudantes que frequentam o ensino fundamental.


Criatividade em prática

A sala de aula se transformou em uma tela de computador ou de celular. Professores, acostumados a olhar nos olhos e entender os anseios de cada aluno, precisaram encontrar novas maneiras de transmitir conhecimento sem contato direto. Os métodos de ensino sofreram mudanças e, no começo, foi difícil se adaptar ao modelo não presencial. Para Aline Aparecida Faé Inocenti, professora do 1º ano, instigar os alunos no ambiente virtual tem sido um desafio diário. "Está sendo necessário buscar e aprimorar muito mais nossas estratégias de ensino, envolvendo 100% a informatização", afirma.

Além de adaptar os conteúdos para um formato novo, os professores precisam encontrar formas de manter o vínculo emocional com as crianças. Longe da escola e dos colegas, elas estão passando por uma situação totalmente nova, que afeta a saúde emocional. "Não podemos esquecer o lado humano, do sentimento, pois a relação sentimental criada entre alunos e professores precisa ser alimentada constantemente, para que os objetivos sejam alcançados", lembra Aline. O modo encontrado pela professora para continuar em contato direto com as crianças foi a aula por videoconferência.

A professora Claudia Port também adotou as aulas por chamada de vídeo na turma do 4º ano. Ela percebeu, pelo grupo do WhatsApp, que as crianças ficavam muito empolgadas quando ouviam um áudio ou assistiam a um vídeo dos colegas. Então conversou com os pais sobre a possibilidade de fazer videoconferências. "A interação entre professor e alunos é muito importante, ajuda a manter o vínculo com os estudos. Quando as crianças vêem a própria professora explicando, que eles já estão acostumados, têm um entendimento melhor do conteúdo", conta. Claudia ainda utiliza outros métodos para atrair a atenção das crianças, como vídeos no YouTube e formulários que elas podem preencher na Internet.

Para que as aulas "live" sejam produtivas, a professora conta com o apoio da família de cada criança. "A participação dos pais, organizando o ambiente e ajudando os alunos a preparar o material, faz toda a diferença. É como se fosse uma equipe por trás do aluno dando todo o suporte necessário", explica. Todas as quartas-feiras, às 19h, a turma se reúne para fazer as atividades. Claudia sempre tenta levar para as videoaulas exercícios diferentes, como jogos, que estimulam a curiosidade dos estudantes.

Além das aulas por vídeo, os professores encaminham conteúdos para os alunos uma vez por semana, por meio do aplicativo disponibilizado pelo município. A carga horária mudou: são apenas 13 horas semanais de aula e os estudantes têm o prazo de uma semana para realizar as atividades. Aline ressalta que grande parte da turma participa ativamente das aulas, mas de acordo com os pais, muitas vezes as crianças se sentem desanimadas por não estarem presentes no ambiente escolar. "Aí entra o desafio do educador em encontrar estratégias de ensino que auxiliem os pais nesse momento", diz.

É o que muitos professores têm feito: colocar a criatividade em prática para proporcionar aulas diferentes e instigantes, que despertem a curiosidade dos alunos. Como a festa junina virtual, promovida pela professora Claudia, ou a contação de parlendas, atividade que fez parte das aulas da professora Jéssica Carvalho. A educadora trabalha com crianças entre seis e sete anos, que estão em fase de alfabetização e, por isso, precisam de auxílio direto para aprender. Foi preciso pensar uma nova forma de passar os conteúdos, na qual as famílias são as mediadoras do processo de aprendizagem. "Os pais precisam fazer a leitura e orientar a realização das atividades. Tenho que agradecer o envolvimento deles e a preocupação em fazer com que a aprendizagem continue acontecendo nas aulas não presenciais", fala Jéssica.

Assim que o formato à distância foi adotado, Jéssica começou a enviar atividades para o grupo no WhatsApp que reúne os pais dos alunos. Mas, preocupada em manter a atenção das crianças, que estão expostas a mais distrações em casa, se comparado a sala de aula, a professora passou a pesquisar novos aplicativos de edição de vídeo e ferramentas digitais, para oferecer tarefas mais atrativas. "É difícil afirmar se todas as crianças estão aprendendo como gostaríamos, cada criança é de um jeito e aprende em um ritmo diferente. Nesse momento, estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance e a parceria da família é fundamental", ressalta.


Apoio dentro de casa

Não foram só os professores que precisaram se reinventar. Com as crianças em casa o tempo todo, as famílias também estão vivendo um momento de adaptação e novidades. Os pais acompanham de perto a jornada escolar dos filhos e desempenham o papel de educadores dentro de casa. A parceria entre escola e família tem se mostrado extremamente importante para o funcionamento do ensino à distância.

No início, foi preciso repensar a rotina, para conciliar o trabalho, as tarefas domésticas e as atividades escolares. Após um período de adaptação, Karen Kirst conseguiu estabelecer um cronograma para o filho Hugo, de 10 anos. "Tivemos que nos policiar no começo, mas agora estudamos juntos por 40 minutos todos os dias. Fazemos aula de leitura e as atividades enviadas pelos professores", conta. A mãe lembra que não foi fácil explicar para o menino a necessidade de realizar exercícios, já que ele não estava mais frequentando a escola. "Agora, já adaptados, seguimos firme no propósito dos estudos online", finaliza.

Na casa de Marcia Isabel dos Santos, estudar virou sinônimo de diversão. Ela reconhece que precisou mudar a rotina, mas considera, neste momento, que os pais devem estar prontos para auxiliar na educação dos filhos. "Passamos momentos maravilhosos juntos, eles fazem as atividades propostas e eu tento motivar e ensinar o máximo que posso", diz. Mãe de Camille, de nove anos, a servidora pública está em contato semanalmente com os professores, para tirar dúvidas e conversar sobre as dificuldades e o aprendizado da filha.


O sonho de Camille é ser professora. Por isso ela comemorou que as aulas não pararam e está se divertindo e aprendendo com os pais e o irmão. A família toda está estudando com a menina!


Especialistas na área da Educação dão várias dicas para ajudar os pais a lidar com as aulas à distância; entre as mais importantes, estabelecer uma rotina parecida com a da escola e proporcionar um ambiente de estudos tranquilo, sem distrações. "Rotina gera organização e ajuda na adaptação: as crianças precisam ter horário para acordar, para se alimentar e para estudar", explica o psicólogo da Secretaria de Educação de Piratuba, Joslei Luís Martins. Ele também lembra que as crianças ainda devem ter momentos de lazer e brincadeiras, mesmo dentro de casa.

Assim como os adultos, as crianças tiveram sua rotina alterada pela pandemia e, de uma hora para outra, pararam de ir à escola e de encontrar colegas e amigos. Coube aos pais explicar o que estava acontecendo e ajudar os filhos a lidarem com as dificuldades desta nova realidade. "A criança sofre influência do meio em que ela vive. Então, se os pais souberem conduzir isso de forma leve e divertida, ela tende a se adaptar de forma bem mais rápida", justifica o psicólogo. O conselho de Joslei é que a família siga apoiando as crianças e utilize de reforço positivo, ou seja, elogios, motivação e valorização do esforço, para que os filhos consigam realizar as atividades das aulas à distância.

A participação dos pais na vida escolar da criança, especialmente neste momento de pandemia, reflete no rendimento e na motivação para estudar. Camille, filha de Marcia, apesar de sentir falta da professora e dos colegas, está se divertindo com a família e se esforçando para tirar o máximo de proveito das aulas online. "Realizo muitas atividades, sempre auxiliando meu irmão e ajudo minha mãe e meu pai. Eu me sinto muito importante e sinto que estou realizando meu sonho, que é ser professora um dia", relata a menina. Para a mãe, é gratificante observar a dedicação da filha. "Sei que nós pais não somos professores, mas sim educadores para a vida toda. Somos um espelho e nossos filhos nos refletem", finaliza Marcia.


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